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18 de novembro de 2008

Alada



Como é bom acordar todas as manhãs com dois passarinhos me chamando, hoje eles voam até minha cama e me enchem de bicadinhas carinhosas. Ontem era eu quem voava até eles pra resgatá-los da gaiola quando o sol levantava. Como é bom ter um ninho quente e aconchegante para morar com meus pequenos, bom ter o pássaro pai ao meu lado, sabiá elegante e de voô leve que me encanta todos os dias com seu olho amarelo.

Bom é deixar de lado todo um mundo cheio de predadores pra ficar o dia todo com vocês sob minhas asas.

Não é fácil fingir que não tenho medo das tempestades só pra me mostrar forte para vocês, mas é bom. Gosto de protegê-los até do que não posso me proteger. É assim quando criamos um ninho só nosso, tenho saudade do ninho onde eu é que ficava sob as asas quentes e macias da minha águia e sob os olhos do meu condor, mas ele ainda está lá e vez ou outra dou uma voadinha até ele pra ganhar forças pra alimentar de amor os meus passarinhos.

É bom voar livre por aí, é bom ter pra onde voltar, é bom deixar as asas crescerem mesmo sabendo que um dia o vôo é inevitável. Eles não vão fugir da gaiola pois não existe gaiola, eles vão voar por aí carregando gravetos pra construir seus próprios lares e eles vão voltar vez ou outra pra ficar novamente sob minhas velhas asas mesmo não cabendo direito nelas. É a vida e ela é linda assim, cheia de animaizinhos delicados para nos deliciarmos!



*pro tó e pra mari, meus periquitinhos sorridentes!

13 de novembro de 2008

A menininha do espelho

Qualquer semelhança é mera coincidência. Lewis Carroll que me perdoe mas a minha menininha também mora no espelho e é muito, muito bonita.
Era sábado e eu tinha que trabalhar, era sábado e minha pequena queria brincar com a mãe, era sábado e o pai já tinha ido dar aula, e lá foi ela para o “tritório da mamãe”. Lá no escritório da mamãe tem um monte de “tutador”, tem também uma porção de brinquedos, uns que podem e uns que não podem, tem banheiro pra lavar a mão na pia e molhar tudo em volta, tem cadeira que gira e é ótima distração, tem um espelho enorme que ocupa toda a parede e tem a menininha que mora lá dentro do espelho. A menininha eu ainda não conhecia, e foi a Marina, a minha garotinha que nos apresentou.
A mamãe tinha colocado alguns brinquedos no chão, perto do espelho, para a filhinha brincar e depois teve que convencer a filhinha que eram bem mais legais que a pia do banheiro. Dever cumprido e a marina já estava bastante entretida com os bonecos, agora dava pra começar a trabalhar.
O programa do “tutador” já estava executando algumas tarefas no automático (ótima descoberta por sinal) e a mamãe começou a perceber que ela e a filhinha já não estavam sozinhas. A marina batia altos papos com sua nova amiguinha e chamou a atenção da mamãe quando disse: _ Mãe, pode “prestar” os “bintedos” pra meninhinha?
_Claro que pode filha, é legal emprestar brinquedos para os colegas. Como sua amiguinha chama?
_Marina mamãe! Lava a mão da menininha, ta “xuja”!
Deixei que o computador se resolvesse e lá fui eu pegar um pano úmido e passar na mão da minha marina, acreditando que assim ela ira crer que eu estivesse limpando a mão da outra marina, a do espelho. Mas a lógica das crianças não é assim tão simples e ela foi logo esbravejando e repetindo que a menininha, e não ela, estava com a mão suja. Deixei o trabalho de lado, afinal não havia cliente apressado que não pudesse esperar em vista de um momento desses. Entrei na onda e no espelho.
_Olha lá filha, a menininha também tem uma mamãe!
_"Palece" com você mamãe.
_Quer ver que ela vai dar um beijo na filhinha dela agora?
E lasquei um beijo na bochecha fofa da minha pequena. Ela riu e me deu o abraço mais gostoso do mundo.
_Ela ta com sede, tem “suto”?
E lá fui eu pegar uma água de coco na geladeira pra matar a sede da nossa “Alice”. Abri a caixinha e dei pra Marina segurar. Ela tomou um pouquinho e ofereceu pra amiguinha, olhou pra mim e riu do seu gesto.
O computador apitou me informando que o seu trabalho acabara, agora começaria o meu. Estava tudo bem, minha filha entretida com o espelho e eu com minhas imagens. Mas essa calma durou até a marina começar a chorar copiosamente, virei-me com rapidez pra ver se ela havia caído. Nada tinha acontecido, porém o choro não parava, peguei ela no colo e perguntei o que tinha acontecido:
_A menininha ta “tiste” mamãe.
_Porque ela ficou triste Mari?
_”Pute” ela ta presa lá.
Fiquei emocionada, confesso, era a Alice no país das maravilhas, ali na minha frente.
A nova amiguinha dela era prisioneira do espelho, assim como a mamãe dela e tudo que havia ali naquele gigantesco refletor de imagens.
Não consegui acalmá-la com palavras, não as tinha mais, mas dei um abraço forte e um beijo naquele rostinho macio. O choro acabou imediatamente, logo depois veio o epílogo:_A menininha ta mais “tiste” não. A mamãe dela fez carinho!!!!

Essas crianças são mágicas!

16 de setembro de 2008

Bom dia á cavalo....

Quem fala demais da bom dia á cavalo ou dá bom dia à cavalo? Percebam o quanto uma crase pode mudar o sentido de uma frase, e percebam também o quanto o silêncio pode evitar que você saia por aí cumprimentanto eqüinos. Façam o que falo mas não façam o que faço porque eu não sei ficar calada e por isso mesmo costumo cometer uma série de gafes facilmente evitadas com a boquinha fechada.
Dia desses ao encontrar com uma conhecida e sem ter o que dizer, logo soltei um: seu cabelo está diferente, mais bonito, o que você fez? - Nem gosto de contar a resposta que obtive, pois fico com vergonha de mim mesma só de lembrar: _ é que troquei de peruca, lembra do que aconteceu com o meu cabelo? Mas agora estou indo em um ótimo dermatologista e ele me disse que vai voltar... (é claro que não foi nada cordial e nem poderia ser).
Só depois que esta minha conhecida começou sua resposta é que me lembrei que á algum tempo atrás esta pessoa foi tentar fazer uma escova daquelas definitivas e teve um problema que fez com que seu cabelo caísse quase todo....que vontade de sumir do mapa, de me atirar da primeira janela, de ser muda pra não passar por situação tão constrangedora. Aí, vem o Marcelo falando: _Tá vendo, você não sabe ficar calada, não sei que mania é esta de puxar assunto.

O Marcelo é òtimo professor, eu é que não sou boa aluna. Alguns dias depois desta gafe monumental, recebo uma cliente no meu escritório, uma noiva que vai casar no ano que vem e queria dar uma olhada no meu trabalho. Uma noiva sozinha me pareceu estranho (normalmente vão acompanhada dos noivos, das mães ou irmãs), depois de uma longa conversa sobre o casamento, na tentativa de ser simpática, saio com essa: _ Nossa, mas você está olhando tudo do casamento sozinha? Nestas horas tem que chamar a mãe, as mães adoram este lance de casamento.
Já maginaram né?A Mãe da moça tinha morrido e minha reputação também!

E teve também àquele dia que encontrei com um colega de meu filho no teatro e ele estava acompanhado de um senhor bem mais velho, no ímpeto de puxar conversa com o senhor, comento o quanto era bacana ver um avô levando o neto ao teatro e blá blá blá...o Marcelo saiu de perto e o tomás foi brincar com o coleguinha, me deixaram sozinha com a resposta nua e crua: O "fulaninho" é meu filho!

É...em boca fechada não entra mosquito...

11 de agosto de 2008

frases jogadas ao vento....




Algodão doce é açúcar com aceleração centrípeta. E bicarbonato de sódio são dois átomos de carbono com um de sódio. (explicações infantis para coisas complicadas ou explicação complicada pra comida infantil)

Quem não arrisca não petisca e quem arrisca serve de isca. (pensamentos muito úteis)

Uirapuru pariu a preta prenha. (trava língua inventado no trânsito)

Epistemologia, hermenêutica, outrossim, deveras, peremptório, são palavras que adoro mas quase não as uso. (adoro isso!!!)

Não preciso disso agora, mas quem sabe depois? (DIA DE ARRUMAR O GUARDA ROUPA)

Sou casada e uso a aliança no dedão. (não é estilo, é falta de tempo de mandar apertar)

O cara chamava Antônio Carlos mas eu só o chamava de Cristiano Machado. (essa é verdade e só entende quem mora em BH)

“Pobrema é de aritimética e poblema é de cabeça”. (verdade verdadeira, ouvi a conversa no ônibus)

_Eu nunca namoraria uma mulher que fuma!
_E eu nunca namoraria um segurança!!!!!!
(diálogo entre a autora e um babaca)


agora já deu.........depois posto mais bobagens.






4 de junho de 2008

Passar Bem

_Vai aí meio quilo de preguiça, jovem?

Essa era mais uma do Moacir.
Será o Moacir um mestre iogue, ou um idiota engomadinho?
o Moacir existe ou é meu Alter Ego?

A risada da moça da mesa ao lado me afronta, mas não o bastante pra me fazer parar de pensar no Moacir. Tal como aquele porco do email que sempre me volta a cabeça. Será o Moacir àquele porco? Trinta minutos de orgasmo do porco não seria o mesmo que trinta anos de serviço público do Moacir?

Divago enquanto tenho vontade de esganar a moça que ri estridente.

Envelhecer é ir se despindo de si mesmo.

"Não sou o mesmo de 20 anos atrás, mais ainda sou Moacir. "
Difícil contar a vida de pessoas tão comuns como Moacires:

há exatos 33 minutos do último dia na repartição, toda a antologia poética de Moacir já estava devidamente arquivada e catalogada por data. As planilhas geradas em 35 anos como notável contabilista ficariam por ali. Eram muitas as caixas.

O barulho dos poucos que teimavam em se despedir, despertara Moacir de sua soneca diária.

Não seria hoje que ele deixaria sua peculiar educação de lado, ao se jogar pela janela ele disse como de praxe: Passar bem!!!

Morrer é ficar nu de existência.

Aedes

Estava eu em casa olhando rodar as hélices do ventilador. Então, súbitamente pensei:
"Mosquito filho da puta! Se Deus existisse não deixaria um ser tão ordinário vagar pela terra. Veado!!!"

Tanto calor e nem dá pra dormir pelado



texto escrito por helena e marcelo

22 de abril de 2008

limbo criativo

Hoje o Tomás chegou pra mim e disse: Mãe, acho que estou perdendo minha criatividade!
Frase estranha pra uma criança de sete anos que cria um super herói por dia, transforma tampa de panela em escudo, desenha os mundos mais coloridos que já vi e vive com a cabeça na lua!!!

Mas não me enganei, foi isso que ouvi daquela pessoinha. Aí entrou minha mania de mim mesma, e comecei a divagar sobre o presente momento e no atual limbo criativo em que me encontro. Foi apenas um projeto de pensamento interrompido imediatamente por um filho ávido de respostas: Mãe é sério, todo dia de parquinho lá na escola fico um tempão pensando de que brincar e aí demora e acaba a hora do parquinho.

Fiquei apavorada! Meu filho é quase um filósofo!Um intelectual daqueles que de tanto pensar ficou lá pensando! Como aquela música do Rumo que fala: “De tanto preparar parou, de tanto se inspirar pirou, de tanto ouvir falar sobre um futuro que virá virou-se todo pro passado a esperar...de tanto vigorar gorou, esperando Godard Godot.”

Sem demonstrar todo o meu susto quanto ao futuro do garoto, resolvi dar uns conselhos, pra ele pensar no que queria brincar antes da hora do parquinho...aí vi a estupidez do meu conselho (se fosse bom a gente vendia, mas o Tó não aprendeu isso ainda e afinal de contas eu sou a mãe dele), ele ia ficar viajando no meio da aula de matemática, deixando as contas de lado e imaginando mil brincadeira divertidas no parquinho, um a zero pra mãe maluca.

Mas a mãe responsável logo veio a tona e disse: filho, isso não é um problema, todos nós às vezes temos falta de criatividade, um dia ou outro, mas vai passar e tenho certeza que o próximo dia de parquinho vai ser incrível, você vai ver. Acho que ele nem ouviu o segundo conselho, tava com a cabeça na lua e uma espada na mão pensando qual seria a brincadeira do dia.

Os filhos sempre preferem a mãe maluca e só as ouvem quando lhes convém. Ponto pra eles!!!

Para todos os meus amigos

"Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e ...
os amigos, que são os nossos chatos prediletos."
Mário Quintana
Achei a frase perfeita pra começar este novo post após um longo e tenebroso inverno, que congelou minha criatividade. Já escrevi aqui neste blog que não gosto de pessoas legais demais. Não acredito em quem é muito gente boa, muito simpático, compreensivo demasiadamente.Por isso não acredito em papai Noel e nem coelhinho da páscoa, também não acredito na Xuxa, nem no gugu e nem em pedagogos e psicólogos (sem generalizar, mas que quase todos são um poço de compreensão, isso é verdade...).É também por esse motivo que confio muito em meus amigos, nenhum deles é legal sempre, todos são uns malas quando dá vontade, todos são uns pulhas de vez em quando e cada um deles guarda sua simpatia pros momentos em que é bom e gratificante serem simpáticos.
Os meus amigos são chatos, assim como eu. Aqueles que eu escolhi para compartilharem a vida comigo são tão humanos quanto eu e é por isso que eu os amo tanto. Não dá pra confiar em quem não perde a cabeça, em quem fica sorrindo o tempo todo, em quem gosta de todo mundo, em quem não discorda de nada, em quem não peida em público...não pode ser verdade e se existir alguém autenticamente legal, não me apresente, fico por aqui com meus chatos preferidos e encantadores!

29 de março de 2008


CUSPIDO NA CARA

QUEBRADO NO PÉ

FURADO NO OLHO

PARTIDO NO MEIO


MET ADE SUMIU



6 de março de 2008

Nadismo

Os espíritos mais inquietos esperem para me corrigir, saibam antes que o título é este mesmo e que embora pareça eu não inventei nada do que relatarei a seguir.
Se quiserem fazer nada procurem pelo cubo vazio, este é o símbolo de um novo movimento que está bombando no Brasil. O lance é o culto ao nada, isso mesmo, pessoas se encontram e ficam sem fazer nada, e depois ficam discutindo sobre o nada. Eis a essência do nadismo.

Foi o que li na revista Istoé desta semana, que existe um bando de gente que se encontra pra não fazer nada e ainda têm explicações “racionais” pra isso tudo. No fundo eu acho que é tudo uma grande piada de um sacana que gosta de ver gente falando nada com nada. E aí, eu com meus botões, descobri em mim uma nadista nata. Este blog é um exemplo vivo da minha vocação. Não tem nenhuma utilidade no que escrevo, falo sobre os nadas da vida cotidiana, que é repleta de vazios.

Fui descobrir então, que existe o nadismo consciente e o inconsciente, o primeiro é o que faço aqui nesta páginas (fazia, pois agora sei que falo de nada) e o segundo é falar sobre o nada tendo consciência de que se está falando nada. (entenderam???) Como quando vamos ao cabeleireiro e começamos a falar abobrinha, estamos praticando o nadismo inconsciente, e quando vamos ao Ibirapuera, no encontro dos nadistas (ou se preferirem, atoístas) e ficamos 45 minutos sem fazer nada e depois conversamos sobre os batimentos cardíacos das borboletas, aí sim estamos sendo conscientes do nada. (complicado pracaralho falar sobre nada)

Mais complicado ainda quando nosso chefe nos manda entregar aquele trabalho e nós explicamos que não podemos, pois nossa nova religião não permite fazer nada. O chefe muito compreensivo acompanha você até o parque Ibirapuera e senta-se em volta do cubo vazio e fica te olhando fazer nada, aproveita pra curtir o ócio também. A cidade toda para, acaba-se o estress no trânsito, pois todo mundo foi fazer nada no parque, e os hambúrgueres do Mc Donald’s não ficam prontos no prazo, pois os empregados também entraram na onda nadista. E aí o caos impera, não porque todo mundo parou, e sim porque no Ibirapuera não cabe tanta gente, e o cubo não é grande o bastante pra caber o nada de todo mundo. E assim eis a conclusão: o nada não é para todos.

21 de fevereiro de 2008

Porque ufano minha língua (a portuguesa)

Sou fissurada por palavras. Principalmente aquelas que são exatamente o que descrevem. Ovo por exemplo, o que mais poderia ser senão o que é? Imagine se lasanha se chamasse angu? Angu não pode ser mais nada do que aquela papa amarela que se come com frango ensopado. Dá pra imaginar um algodão se chamando pedra? Idiossincrasia tem alguma chance de ser algo simples? A mediocridade seria algo valoroso algum dia? Talvez sim, mas não creio. Sacola é um saco, mas um saco mais arrumadinho, com alça e tudo, perfeito.
Os exemplos são muitos e já deve estar passando um milhão de outras palavras perfeitas na cabeça de que lê este texto.
E não existe felicidade maior pra esta minha cabeça doente e sistemática do que encontrar uma família de palavras que são a origem da perfeição semântica. As vencedoras do prêmio “palavra perfeita”. Uma família meio excluída dos meios ,hoje em dia, por não estarem na moda.

Algum outro termo descreveria melhor a gordura acumulada em nosso corpo do que “tecido adiposo”?. O que melhor descreveria a gordura localizada do que “adiposidade”?. Uma coisa adiposa é assim, como diria? Adiposa. Não dá pra encontrar nada tão perfeito na linda língua portuguesa. E destas palavras ganhadoras, deriva outra, não menos perfeita mas secundária, o “adipômetro”.
Veja bem, você vai a academia fazer um exame e chega um cara malhado, daqueles que, ao contrário de mim, abriram mão de várias cervejas geladas em nome do abdômen perfeito, e começa a apertar seus pneuzinhos com uma espécie de pinça esquisita. Como se chamaria a tal ferramenta? Apertômetro, vergonhômetro, toalha, chinelo, martelo ???? É claro que não, pois a nossa língua é perfeita demais e nos fornece as melhores alcunhas: Adipômetro ou medidor de gordura sua sem vergonha e tomadora de cerveja....
As academias de ginástica deviam se espelhar neste nobre exemplar de nossa língua e parar com essa mania de encher seus letreiros com palavras em inglês, fitness, sport center, dentre outras. Mil vivas ao adipômetro!!!

19 de fevereiro de 2008

cansei de ser eu



Tem hora que parece que o corpo vai explodir de tanto sentimento, pensamentos, verdades, pieguices, sonhos, raivas, buzinas. Não faz silêncio dentro de mim. É um barulho rouco, preso pela anatomia que não favorece a acústica.

Não dá pra estar sozinha estando comigo mesma. Eu encho o meu saco o tempo todo. Eu não dou descanso a mim. Eu sou barulhenta, falo alto e não me ouço. E além de tudo ainda quero companhia.

Não dá pra sentir solidão estando envolta a tudo. Caminhar sozinha de mãos dadas com tudo o que há, não é solitário. Longe de mim esta conversa fiada de copo meio cheio, meio vazio. Estamos abarrotados de coisas o tempo todo, eu, você e o copo. É chato estar cercado de tudo quando se deseja o nada. Estar vazio, fino e agudo como o som de um apito. Mas somos normalmente graves, trombones a tocar sem descanso, cheios de razão e conhecimento. Pesados.

Por que eu não vou ver se eu tô na esquina?

18 de fevereiro de 2008

Angústia

Porque a angústia dói? Nunca encontrei resposta. Talvez porque não tenha procurado nos lugares certos. Quando me sinto assim, leio poesias. Deveria buscar resposta no wikipédia e não no Neruda. A poesia me acalma, é um analgésico pro meu coração. Mas é o coração que dói na angústia? Nas enciclopédias e revistas cientificas não vislumbrei esclarecimentos, porque não as li. Em Fernando Pessoa encontro semelhantes e saio desta geografia medíocre de mim mesma. Quando estamos sofrendo somos egocêntricos. Achamos que nossa dor é a maior do mundo, e estamos certos. Não há angústia mais dolorosa do que a nossa.
Fui buscar no dicionário, não há excesso na razão. A razão não peca por excesso e sim por falta. Eis o que vi: Angústia - 1- estreiteza, limite, redução, restrição. 2 – ansiedade ou aflição imensa. 3 – sofrimento, tormento, tribulação.
O dicionário não erra. Realmente o coração fica bem estreito, não cabe mais sentimento algum. A angústia aprecia a solidão.
Vou ainda mais fundo na razão e encontro a angústia de Heidegger “disposição afetiva pela qual se revela ao homem o nada absoluto sobre o qual se configura a existência”.
Os poetas que me acalmam devem ter lido Heidegger. Eles transmitem em seus versos essa insignificante existência. É nesta hora que o aperto no peito vem mais fundo, quando entramos em contato com o nada que representamos. Deste ponto de vista a angústia não é egocêntrica, mas continua solitária a dilacerar nosso coração.

O fato é que nenhuma resposta é válida para amenizar este aperto. Nenhuma verdade vai amainar a dor que sinto agora. Dor sem motivo algum, sem razão de ser. E no pecado da falta, deixo a razão de lado e me recorro a quem melhor que eu sabe usar as palavras:

“_Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso...
_Não, não falemos disso. De resto, fomos nós alguma coisa?
_ Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, é sempre belo falar do passado...As horas tem caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer coisa?
(Fernando pessoa – O Eu Profundo e os outros Eus – poema “O Marinheiro”)

15 de fevereiro de 2008

Nossos amigo Clóvis

Socorro!!!!!!!!!
Só pode ser macumba que fizeram pra me destruir, pra acabar de vez com minha paciência. Enterraram meu nome junto com um saco de cimento e agora as construções me perseguem. Em três anos foram 2 prédios sendo construídos ao lado da minha casa, uma reforma que nunca acaba no vizinho de cima, uma outra monumental ao lado do meu escritório.
Pra piorar tudo os pedreiros da construção ao lado de casa resolveram criar galinhas no canteiro de obras. Eu juro estar falando a verdade. Um galinheiro com direito a pintinhos piando o dia todo e um maldito galo que para não perder sua fama, insiste em cantar as 4 e meia da manhã, não sem antes dar uma sacolejada nas asas fazendo um barulho horrível.
Não, eu não moro no interior, mas na capital de um dos principais estados da principal região do Brasil.
No começo, quando ouvi os primeiros indícios das aves achei que era delírio. Depois pela janelinha do corredor do prédio avistei as primeiras galináceas a ciscar. Acreditei que elas deviam ter alguma função. Meu marido levantou a hipótese de ser por causa de possíveis cobras existentes no lote. Aceitei. Mas depois a família das galinhas começou a crescer e a coisa foi ficando insuportável. Até que em um belo domingo de sol, voltando de um final de semana no sítio, ao abrir a porta da área privativa de meu apartamento, me deparo com um exemplar masculino das ditas cujas, o mesmo que me acordou em diversas madrugadas.
Percebam o quão surreal é isso tudo: moro em Belo Horizonte, em um apartamento de um bairro classe média (deve ser isso), chego em casa domingo e tem um galo no meu quintal. “sopra que é farofa, chuta que é macumba” diria a sábia tia Bê. Não soprei e nem chutei. Fiquei com dó do bichinho e fui logo arrumar alguma coisa pra ele beliscar. Sr. galo, você aceita um drink? Sr. galo, você se incomodaria em não fazer mais cocô na minha cerâmica encerada? Será que poderia cantar um pouquinho mais tarde?
Meu filho mais velho logo tratou de dar nome ao bichinho: Clóvis.
Tinha um galo no meu quintal e agora a família inteira já se apegara a aquele ser penoso.
E como depois de todo domingo vem uma segunda feira, a segunda chegou e junto com ela o pedreiro da construção ao lado, dono do galo, ou melhor, dono do Clóvis.

_Nem vem moço, não vai levar o galo de jeito nenhum, você já está sem razão, pois criar galinhas em uma construção é um absurdo e ainda por cima deixar o bicho pular pro lado de cá, ficar sem comida o final de semana inteiro e agora vem dizer que quer ele de volta??? Pode tirar seu galinho da chuva que o Clóvis é nosso.

Não sei quem tinha a cara pior, se era o pedreiro, se era meu marido, pensando que eu tinha pirado, ou se era o Clóvis, coitado, alheio àquela disputa por sua pessoa.
É claro que meus argumentos não colaram e meu marido já estava doido pra despachar o penoso pra longe da nossa casa. E assim o Clóvis se foi. O brutamonte do pedreiro enfiou o coitado (o galo) num saco e picou a mula. Só restaram alguns milhos jogados no chão e a carinha triste da pequena dizendo: Mamãe, cadê o cocó???

1 de fevereiro de 2008

Nervos nem tão de aço



Um dia o meu filho Tomás ,devia ter uns 4 anos, acordou chorando e quando fui acudi-lo me contou que tinha tido um pesadelo horrível. Custei a convencê-lo a contar dizendo que ia se aliviar se falasse. Ele então me disse que um ser monstruoso o perseguia, “um moço todo coberto de limão, mamãe”. Não deu, tive um acesso de riso e ele ficou realmente bravo comigo, ele ali morrendo de medo e eu rindo. Tá bem, fui cruel, mas não consegui me segurar. Passada a crise comecei a pensar nos medos que eu tinha na infância (nada psicanalítico – entendam bem), medos tão aparentemente banais quando este de meu menino, mas que pra mim tinham o tamanho do mundo. Cobria de pavor todos os cantos de meu quarto e evaporavam debaixo da minha cama.
Lembrei que eu tinha pânico do Paulinho da Viola, sempre tinha pesadelos com ele. Meus pais tinham um disco dele em casa (Nervos de aço) e a capa me fazia tremer de medo. Liguei a capa a pessoa dele e aí todas as vezes que ele aparecia na televisão eu fechava os olhos. Sem exageros, meus pesadelos eram recheados de paulinhos da viola.
Lembrei-me também de um medo politicamente incorreto: tinha verdadeiro horror de travestis. Explico-me: minha infância foi nos anos 80, início da AIDS e eu ficava vendo o noticiário e sempre ligavam a doença aos gays e eu, criança que era, ligava os gays aos travestis. Este medo passou como também já superei o trauma com o Paulinho da viola e por sinal gosto muito do “Nervos de Aço”.
Tinha medo de chinelo virado, de pio de coruja e de andar de costas. Uma moça que trabalhou lá em casa falava que chinelo virado era má sorte, que pio de coruja era mau agouro e que se agente andasse de costa a mãe morria. Que moça cruel, mal sabe ela que ate hoje desviro todos os chinelos que encontro.
Sei que são medos exdrúxulos, mas tem a desculpa de terem sido criados pela criança que eu era, o pior são os pavores estranhos que desenvolvemos ao longo de nossa vida. Conheci uma pessoa (eu juro estar falando a verdade) que tem medo de ruivos, só os naturais, os de cabelo pintado ela suporta. Tem outra que não pode ver um anão, entra em paranóia.
Fui rir do meu filho e de seu monstro coberto de limão e acabei chegando no Paulinho da viola e nos ruivos. Me perdi no mundo dos medos idiotas que até esqueci que tenho dentista (alguém por aí não tem medo destes?????).

29 de janeiro de 2008

hai kai úmido

Dias no anzol

e o guarda chuva começa

a aguardar o sol

17 de dezembro de 2007

Perto demais ou Vizinho é foda

Li outro dia em um blog (depois que resolvi criar um fiquei maníaca por eles) que os vizinhos sempre davam boas crônica. De imediato a frase não me chamou atenção, mas depois de um tempo, vendo os rastros de pipocas, latinhas, balões murchos e outras porcarias que os filhos de meus vizinhos deixam na garagem, lembrei-me da bendita frase e resolvi escrever – pra ver se a raiva passa.

Não são as crianças o problema, nem tampouco o lixo e o barulho criado por elas (também tenho filhos), o problema está na proximidade das paredes (e das garagens, diga-se de passagem).

Como pode dar certo tantas pessoas juntas na mesma caixa de concreto???? Como ser absolutamente feliz (existe isso????) tendo que aturar a música sempre ruim que seu companheiro de prédio teima em deixar alta. Como agüentar o latido estridente dos dois cachorros do ap de cima sem maldizer a milésima geração de seus donos.

Fico pensando que tenho que ser civilizada e evitar o confronto direto. A civilidade não me permite sair desferindo “piabas” (pra quem não sabe são tapas estalados na testa) nas porcas crianças, nem posso me permitir xingar a mãe do síndico quando este resolve construir uma escada pra lugar nenhum em uma área que ninguém vai, usando meu suado dinheirinho. Queria eu poder aranhar o carro parado fora da vaga me impedindo de sair, chutar o cachorro estúpido que me avança toda vez que me aproximo e ainda esganar a dona que diz: “ele não morde”.
Mas não posso, minha mãe me ensinou a não jogar lixo no chão, a não comer porcarias antes do almoço e a não chutar os vizinhos. Eles não sabem, mas foram salvos pelos sábios conselhos da dona Gláucia.

29 de novembro de 2007

Beleza diferente

Quando eu era criança, meu maior sonho era ser bonita. Olhava aquelas meninas do colégio, todas “certinhas", cabelo lisinho, olho azul, com a canela sem nenhum machucado e ficava me sentindo um monstrinho. Cabelo anelado era (e ainda é) execrado. Minhas pernas cheias de marcas de tombos (eu não era fácil), um ar desengonçado, tudo me fazia sentir mais feia. Não que fosse um sofrimento, crianças não sofrem a toa, mas era um incômodo, um desejo de ser igual à maioria.
Minha prima e melhor amiga, a Ju, era do time das bonitas, cabelo liso preto, olho azul, branquinha...parecia uma fada (até hoje). Um fatídico dia, eu caio na besteira de perguntar pra minha mãe se eu era bonita igual à Ju. (As mães sempre são responsáveis por traumas de infância, querendo ajudar, acabam fudendo o troço todo). Eis que minha mãe vem com a frase que ressoaria em minha mente por longos anos: Minha filha, você tem uma beleza diferente!!!
Fudeu tudo....beleza diferente para uma menina que queria ser igual era o fim.

Demorou muito pra eu perceber o que ela queria dizer (se é que tem desculpa uma frase desta...hehehe). Demorou, mas um dia eu descobri que meu cabelo anelado era bonito, quando mais sarará ele tivesse. Descobri que eu tinha um charme, bom papo, um corpo bacana e podia ser bonita sim. Não como as moças que normalmente estampam as revistas, não com escova definitiva e lentes de contato. Bonita como eu era........uma beleza diferente!

As mães acabam sempre tendo razão.

Obs: nada contra as moças normalmente bonitas, cada um na sua, inclusive continuo achando a Ju linda... e quando caio na besteira de comprar revista feminina me deparo com tantas beldades que volto ao meu tempo de escola e por milésimos de segundo (antes da razão entrar em cena) tenho a suprema vontade de ter uma beleza normal.

Obs 2: quando contei pra minha mãe deste “trauma”, estávamos a família toda reunida e tomávamos algumas biritas, caímos na gargalhada, malhamos muito a dona Gláucia e suas gafes impagáveis. Ela, no entanto, ficou tentando se explicar...culpada coitada....coisa de mãe.