19 de fevereiro de 2009

Caos

Quando o mundo parece que vai desabar, tudo vai se conspirando pra tirar você do sério: a babá adoece quando as aulas começam, o carro estraga na semana em que o trabalho brota verdinho, o dinheiro some no meio dos códigos de barra e tarifas obrigatórias, seus pais resolvem se separar, o telefone sempre toca na hora do almoço, há bastante dúvida na hora de preparar a lancheira das crianças, dúvidas no cardápio do almoço, dúvidas sobre a existência de Deus, dúvidas sobre onde se quer chegar, onde ir, como começar, se começar, como vai acabar, se vai acabar.O filho da faxineira morre e o síndico tem que arrumar uma substituta. Você é o síndico. A reunião de condomínio é às 20:30h e sua filha ainda não dormiu, você é o síndico. O cachorro do vizinho não para de latir e sua filha não consegue dormir e a reunião já começou e você não está lá, você é o síndico.
O telefone continua a tocar assim que você senta pra almoçar, o extrato do banco insiste em continuar vermelho, a babá tem 5 dias de licença e provavelmente não volta até depois do carnaval. Adiam-se todas as cervejas com os amigos, adiam-se vinhos com o marido, adia-se a massagem, desmarca-se o médico, dá-lhe dor nas costas, bolinhas homeopáticas e até uma semaninha de antibióticos.
Tive um fortíssimo pressentimento de que as coisas vão melhorar!

Família Doriana

Uma das melhores decisões que tomei na vida é a de me permitir tomar café da manhã com meus filhos, quase todos os dias. Para isso, precisei pedir demissão de um emprego considerado “bom”, dar as caras em um negócio próprio e ficar, digamos, menos ricas (pra não dizer mais pobre – dizem que dá azar).
Mas o fato é que mesmo sem o cream cheese, caro demais pra atual conjuntura, e com o pote de requeijão sendo devorado pelos pimpolhos, tomar café com meus pequenos é, no mínimo, um luxo!
E foi numa destas luxuosas refeições matinais que descobri que havia me transformado em um queijo. Tudo aconteceu muito rápido, entre o tody que fazia para o Tomás e o terceiro pedaço de bolo que colocara no prato da Marina (detalhe: no prato da baixinha já se encontravam um pedaço de queijo e farelos de tudo que havia na mesa). Em lampejos de segundos, uma das colheres de café com quem Marina tecia uma duradoura e profunda amizade se transformou no Tomás: "Mamãe, esta tulher é o Tomás, e esta outra é a Manina.”
Com um pedaço de pão na boca não dava pra responder, deixei pra lá.
"Mãe, o bolo é o papai deles e o queijo é você, mamãe do Tomás e da Manina tulher" (leia-se colher). Olhei pro meu marido como quem diz: _Criança é assim mesmo né? E continuei no meu pão de sal sem miolo.
Manteiga vai, manteiga vem, eis que Marina começa a olhar pros lados, meio sem graça, dando uma risadinha linda; pega sua amiga “Tulher” na mão e fala baixinho como se lhe contasse um segredo: “Acabei de comer nossa mamãe”.
Gargalhada geral! É ou não um luxo começar o dia assim?

27 de janeiro de 2009

prefixo

Eu contei,
e descontei aquele beijo.
Eu pedi,
e despedi aquela moça.
Eu parei,
e disparei aquela bomba.
Eu cobri,
e descobri que estava errada.
Eu liguei,
e desliguei a luz do quarto.
Eu pensei,
e dispensei a minha sorte.
Agora sei,
que toda vida é um pré-fixo.

Células

Um Homem varria flores caídas no chão.
Na esquina, outros usam a física das roldanas pra levantar caixão.
Mais em frente, embaixo de uma sombrinha, uma mulher vende carne de porco no pão.
Lá de cima alguém olha tudo só de calção.

Na ponta tem alguém guiando o trem.

Cada qual com seu varal de roupas brancas, seu teto de telhas, sua cama de tijolos, seu colchão de espuma, seus copos plásticos, sua janela de vidro, seus óculos de espelho.

Todos tem celular.