19 de fevereiro de 2008

cansei de ser eu



Tem hora que parece que o corpo vai explodir de tanto sentimento, pensamentos, verdades, pieguices, sonhos, raivas, buzinas. Não faz silêncio dentro de mim. É um barulho rouco, preso pela anatomia que não favorece a acústica.

Não dá pra estar sozinha estando comigo mesma. Eu encho o meu saco o tempo todo. Eu não dou descanso a mim. Eu sou barulhenta, falo alto e não me ouço. E além de tudo ainda quero companhia.

Não dá pra sentir solidão estando envolta a tudo. Caminhar sozinha de mãos dadas com tudo o que há, não é solitário. Longe de mim esta conversa fiada de copo meio cheio, meio vazio. Estamos abarrotados de coisas o tempo todo, eu, você e o copo. É chato estar cercado de tudo quando se deseja o nada. Estar vazio, fino e agudo como o som de um apito. Mas somos normalmente graves, trombones a tocar sem descanso, cheios de razão e conhecimento. Pesados.

Por que eu não vou ver se eu tô na esquina?

18 de fevereiro de 2008

Angústia

Porque a angústia dói? Nunca encontrei resposta. Talvez porque não tenha procurado nos lugares certos. Quando me sinto assim, leio poesias. Deveria buscar resposta no wikipédia e não no Neruda. A poesia me acalma, é um analgésico pro meu coração. Mas é o coração que dói na angústia? Nas enciclopédias e revistas cientificas não vislumbrei esclarecimentos, porque não as li. Em Fernando Pessoa encontro semelhantes e saio desta geografia medíocre de mim mesma. Quando estamos sofrendo somos egocêntricos. Achamos que nossa dor é a maior do mundo, e estamos certos. Não há angústia mais dolorosa do que a nossa.
Fui buscar no dicionário, não há excesso na razão. A razão não peca por excesso e sim por falta. Eis o que vi: Angústia - 1- estreiteza, limite, redução, restrição. 2 – ansiedade ou aflição imensa. 3 – sofrimento, tormento, tribulação.
O dicionário não erra. Realmente o coração fica bem estreito, não cabe mais sentimento algum. A angústia aprecia a solidão.
Vou ainda mais fundo na razão e encontro a angústia de Heidegger “disposição afetiva pela qual se revela ao homem o nada absoluto sobre o qual se configura a existência”.
Os poetas que me acalmam devem ter lido Heidegger. Eles transmitem em seus versos essa insignificante existência. É nesta hora que o aperto no peito vem mais fundo, quando entramos em contato com o nada que representamos. Deste ponto de vista a angústia não é egocêntrica, mas continua solitária a dilacerar nosso coração.

O fato é que nenhuma resposta é válida para amenizar este aperto. Nenhuma verdade vai amainar a dor que sinto agora. Dor sem motivo algum, sem razão de ser. E no pecado da falta, deixo a razão de lado e me recorro a quem melhor que eu sabe usar as palavras:

“_Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso...
_Não, não falemos disso. De resto, fomos nós alguma coisa?
_ Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, é sempre belo falar do passado...As horas tem caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer coisa?
(Fernando pessoa – O Eu Profundo e os outros Eus – poema “O Marinheiro”)

Nomes dos esmaltes

Pode parecer ridícula para os homens esta mania de fazer as unhas, mas para nós mulheres é visceral, sentimo-nos peladas se a ponta de nossos dedos não estiverem devidamente lixadas e pintadas. O que varia de mulher para mulher é a cor do esmalte, e vez ou outra nos deparamos com o seguinte dilema: usar ou não cintilante?
O vermelho também é caso de polêmica, umas adoram, outras odeiam.
Outras questões que merecem citação por serem tão comuns no universo das manicures são: lixar ou esfoliar? O esmalte dos pés e das mãos serão os mesmos? Usar óleo secante ou ele dá bolinhas?
Vejam como é complexa uma simples ida ao salão. Além de termos que escolher entre tantas opções que nos são apresentadas ainda temos que tratar com indiferença o odioso nomes dos esmaltes: Gabriela, Tieta, paixão, meia de seda, Quero Beijar...
Confesso que às vezes me constrange ter que pedir: hoje quero o “Glamour Pink”. Quem em sã consciência acha irrelevante o nome dos esmaltes??? Quem é o cara (só pode ser homem) que passa seus dias inventando nomes esdrúxulos para os nada inúteis esmaltes??? Eu ainda hei de escrever um manifesto para os fabricantes mostrando o constrangimento que nós mulheres passamos toda a semana quando vamos ao salão. Será que já não é constrangedor o bastante nossas idas ao ginecologista, nossas visitas as depiladoras, fingindo naturalidade com as pernas arreganhadas? Mulheres de unhas pintadas uni-vos em nome do bom gosto. Vamos começar uma campanha para a mudança das alcunhas de nossos companheiros esmaltes.
E pra aumentar ainda mais minha ira contra os fabricantes destes cosméticos, fui à farmácia para comprar acetona e sem olhar muito peguei uma marca com o nome de “saramandaia”. O nome é horrível, mas não foi nada comparado ao slogan que vinha logo abaixo: “Acetona saramandaia, use e tenha uma vida mais feliz”. Alguém pode me explicar isso? Perdi meu dia inteiro pensando no motivo que leva alguém a escrever um slogan deste em um vidro de removedor de esmalte. Pensei muito, por vezes me deixo levar por questões essencialmente inúteis, até que veio a luz: é o cheiro dos produtos químicos que faz estes seres humanos chegarem a tal ponto de criatividade. Só pode ser isso, um bando de lunáticos cheirando químicos o dia inteiro e ao final são levados a uma sala, colocados em frente a um bloco de anotações e começam a fazer um brainstorm de nomes de esmaltes e slogans de acetona. Era óbvio, mas eu não via. Graças a Deus a verdade sempre aparece.

15 de fevereiro de 2008

mais haikais




Parece que cresce.
Nasce bolha,
Morre sabão.



Poesia na areia.
Escreveu não leu,
O mar lambeu.